CONFERÊNCIA COM SALIKOKO MUFWENE | 8 NOVEMBRO 2023

Making Sense of the Ecology of Language and Linguistic Ecosystems


A ecologia mais imediata da língua encontra-se no falante e na sua mente. Numa perspectiva filogenética centrada no modo como os seres humanos evoluíram da comunicação sem língua para a comunicação através de uma língua, esta é a ecologia que mais importa. Ela é definida pela anatomia humana, pela capacidade mental e pela maneira como a evolução destas possibilitou o aparecimento gradual da língua nos primatas humanos. Na história humana, desde a dispersão do Homo Sapiens para fora de África, no próprio continente e (para alguns) de regresso a África, muitos outros factores ecológicos se tornaram relevantes, incluindo a estrutura da população, que resulta de sistemas económicos e políticos específicos, os quais, no contexto da colonização, são em grande medida influenciados por condições climáticas e por outras condições ecológicas naturais. No quadro da colonização e da evolução diferenciada de algumas línguas europeias nas colónias, estas observações levaram-me a considerar uma cascata de factores ecológicos que influenciam os resultados, incluindo o aparecimento dos “crioulos” portugueses da Ásia e do Pacífico. Contarei a história da frente para trás, começando por relatar o aparecimento dos crioulos e como isso nos incita a revisitar hipóteses tradicionais da linguística genética relativamente à especiação linguística, recuando desse ponto até ao modo como se deu a evolução desde o aparecimento das línguas primordiais na filogenia humana. Espero poder mostrar como a evolução da língua é um assunto complexo e variado. No que diz respeito à língua, tal como noutros domínios da evolução enquanto processo multifacetado, é a ecologia que lança os dados.

The most immediate ecology of language lies in the speaker/signer and their mind. From a phylogenetic perspective focused on how humans have evolved from having communication with no language to communicating in language, this is the ecology that matters the most. It is defined by the human anatomy and mental capacity and how their evolutions enabled the gradual emergence of language in human primates. In human history since the dispersal of Homo sapiens out of, within, and back to Africa (for some), many other ecological factors have become relevant. These include population structure, which is the outcome of specific economic and political systems, which, in the context of colonization, are largely influenced by climatic and other natural ecological conditions. In the context of colonization and the differential evolution of some European languages in the colonies, these considerations led me to conceive of a cascade of ecological factors influencing the outcomes, including Portuguese “creoles” of Asia and the Pacific. I will tell the story backwards, starting with my account of the emergence of creoles and how it prompts us to revisit traditional genetic linguistics accounts of language speciation, going all the way to how things may have proceeded since the emergence of primordial languages in human phylogeny. I hope to show how complex and varied the subject matter of the evolution of language is. Regarding language, like other domains of evolution as a multifarious process, the ecology rolls the dice.

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SOBRE SALIKOKO MUFWENE

Salikoko Mufwene

Salikoko Mufwene é um linguista de grande prestígio, conhecido pelo estudo cruzado de aspectos formais, sociais, evolutivos, antropológicos e ecológicos da língua. Nos seus trabalhos tem dado atenção especial às consequências do contacto entre línguas em África e na América como resultado da colonização e da globalização.

Licenciou-se na Universidade Nacional do Zaire e doutorou-se na Universidade de Chicago. Trabalhou na University of West Indies e na Universidade da Georgia, antes de se ter fixado na Universidade de Chicago, em 1991, onde é actualmente o Edward Carson Waller Distinguished Service Professor of Linguistics and the College, além de pertencer ao comité de Biologia Evolutiva, ao comité de Estudos Conceptuais e Históricos da Ciência e também ao comité de Estudos Africanos. O Professor Mufwene é membro da American Philosophical Society, da American Academy of Arts and Sciences e da Cátedra Mondes Francophones no Collège de France.

As suas publicações incluem The Ecology of Language Evolution (Cambridge University Press, 2001), Créoles, Écologie Sociale, Évolution Linguistique (l’Harmattan, 2005) e Language Evolution: Contact, Competition and Change (Continuum Press, 2008). Nelas a evolução das línguas e em particular as línguas crioulas são abordadas na perspectiva da biologia evolutiva, o que tem fundamentado a sua rejeição do excepcionalismo linguístico.